domingo, 22 de janeiro de 2017

Pedras, lama e geada

[arquivo cidade 038] Mas não deixa, contudo, de haver algo de muito sedutor neste processo de transformação do solo, quanto mais não seja o desejo de o entender. O conhecimento é construído com a vivência do terreno, com o caminhar sobre um solo pedregoso, lamacento ou coberto de geada. Na terra poderemos encontrar um olhar renovado, a compreensão de gestos do passado, mesmo aqueles que poderão ter sido vividos por quem há séculos desapareceu. Há um caminhar humano que permanece por longos anos plasmado nestes horizontes. Estas fotografias buscam também esse tempo, essa memória. Procurar o tempo longo da cisão da passagem de uma condição animal para o dealbar da humanidade. Dificilmente uma bibliografia transmite uma vivência concreta, mesmo o cinema tem limitações. As fotografias aqui apresentadas são um movimento que procura a representação do desejo de captura das dimensões da terra e do tempo breve do seu habitar. Andamos, lentos, sobre um reino de silêncio, de sentidos despertos, de aproximação à força dos elementos basilares que compõem a natureza intacta ou o ambiente habitado.
Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

sábado, 21 de janeiro de 2017

Libertação da terra

[arquivo cidade 037] O abandono da “prisão” da terra é uma realidade que poderá ser difícil de interpretar à luz de conceitos contemporâneos. E estamos tão próximos desse passado. Aquele espaço teria que ser vivenciado noutro tempo, durante os invernos duros e os verões tórridos. Quem habita as aldeias não tem dúvidas nem hesitações sobre o porquê do fim das mãos no arado. Foram tempos e rituais que se deixaram para trás, que levaram muita gente para as cidades, para as suas cinturas periféricas. Nos povoados de origem deixaram, indeléveis, memórias fortes, mas, ainda assim, a recusa de um regresso. 
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os caminhos que partem do último lugar

[arquivo cidade 036] O “fim” da arquitetura popular tradicional poderia ser interpretado como uma derrota. Não há perdedores, há um movimento civilizacional imparável. É um ciclo de habitar que chega ao fim, que deixa no solo as ruínas do seu “esplendor” passado. Foram desenvolvidas soluções arquitetónicas de grande equilíbrio e qualidade de desenho. Eram formas que respondiam a problemas concretos, saídas para necessidades prementes, muitas vezes de sobrevivência. O Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal, coordenado pelo arquiteto Francisco Keil do Amaral, então presidente do Sindicato Nacional dos Arquitetos, é um tributo a esse mundo. É um registo feito entre 1955 e 1960 que capta uma civilização à beira do seu colapso. Legitima uma fonte de inspiração e de liberdade para o modernismo arquitetónico que, tardiamente, despontava de forma generalizada em Portugal e que procurava a sua internacionalização. Era como se a própria arquitetura tradicional aguardasse esta passagem de mensagem e de testemunho para implodir. 
Ficalho, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Segundo revés

[arquivo cidade 035] Hoje, este mundo afastado das maiores cidades continua o seu processo evolutivo com um outro revés. As casas que foram construídas pelos emigrantes destinavam-se também a acolher os filhos e os netos. Mas os jovens integraram-se nas comunidades de acolhimento, estudaram e, no início da vida adulta, iniciaram a vida laboral. O passo seguinte seria a constituição de família. O regresso à terra dos pais, em Portugal, deixava de se perspetivar. No tempo da reforma da atividade profissional, a primeira geração de emigrantes volta aos seus lugares de origem, mas, em muitos, casos, não será por muito tempo. A permanência de filhos e netos nos países estrangeiros leva a que estes homens e mulheres voltem para junto dos mesmos. As aldeias apresentam agora dois níveis de abandono. O das casas pequenas, mais antigas, quase sempre construídas com métodos tradicionais, e as casas grandes, mais recentes. Este fenómeno não é uniforme em todo o país, apresentando mesmo algumas diferenciações assinaláveis. O Minho e o Alentejo são um pouco uma exceção a esta leitura, mas correspondem a territórios que não deixaram de ser também transformados em direções opostas: o Minho numa exuberância significativa de muitas das suas formas construídas versus o Alentejo num conservadorismo evidente, em contraste com uma vanguarda ideológica de oposição ao regime do Estado Novo, na incessantemente procurada reforma agrária. Há ainda casos pontuais, um pouco por todo o país, de resistência ou declínio mais acentuado desta imagem geral que caracteriza o mundo rural. Algumas destas diferenças constituem casos de estudo muito interessantes.
Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Pobreza

[arquivo cidade 034] Com o amealhar de poupanças, a primeira geração de emigrantes começa a construir novas habitações. Novos materiais e áreas muito mais generosas levam a que se abra o perímetro das aldeias. O seu antigo núcleo rural é, em parte, desabitado. As relações sociais, muito relacionadas com rituais associados aos ciclos das plantações e colheitas, também se alteram. As novas casas grande construídas por quem fora procurara alguma riqueza, de desenho quase sempre pobre e uniforme nas suas soluções arquitetónicas, simbolizam o sucesso na vida face à pobreza em que permaneciam as populações que haviam decidido ficar.
 
Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. 2016
 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Tempo longo delimitado

[arquivo cidade 033] Historicamente, a maior densidade populacional de todo o espaço português, com a exclusão das cidades, dá-se em meados do século passado. Um regime opressor governava um país fechado ao exterior. A grande maioria dos solos era, e é, pobre e em parcelas de pequenas dimensões, mas sempre se procuraram novos campos para cultivar à medida que as famílias cresciam. A fome surda, ou o seu limiar, estimulou o “salto”. Em meados dos anos sessenta o regime começou a apresentar fragilidades. A uma vigilância menos apertada da fronteira com Espanha não será alheia a participação portuguesa nas guerras que, entretanto, eclodiram nos territórios ultramarinos de expressão portuguesa, concentrando em si um enorme esforço administrativo e militar. Há um esvaziar parcial dos campos. Simultaneamente, aumentam consideravelmente as migrações internas com destino às cidades, particularmente Lisboa e a sua área limítrofe, onde se procura trabalho e o afastamento da dureza das lides da agricultura, dos pés na terra e as mãos no arado ou na sachola. Este movimento populacional tem como consequência, não só o abandono dos campos, mas, sobretudo, de muitas casas. O declínio não mais será travado.
 
Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016
 
 
 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Um lugar em processo

[arquivo cidade 032] A arquitetura popular tradicional teve um lugar próprio na história do povoamento do espaço português. O período do seu desenvolvimento é necessariamente limitado. A sua evolução foi lenta, mas terá durado vários séculos. Agarra as suas raízes, talvez, ao período castrejo, quando se erguiam cividades no alto dos montes. O uso dos metais e da mineração irá proporcionar poderosas ferramentas evolutivas. Daí até meados do século xx, os processos construtivos pouco evoluíram em espaço rural. O grande salto dá-se com o uso generalizado do cimento. Betão armado, ferro, tijolo, vidro e, mais tarde, o alumínio.
Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. 2016

Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. 2016